Uma organização pode ter muitas coisas importantes para fazer.
Clientes para atender. Processos para melhorar. Custos para controlar. Pessoas para desenvolver. Projetos para concluir. Tecnologia para incorporar. Novos mercados para explorar.
Tudo isso pode ser importante. Mas será que tudo pode ser prioridade? Essa distinção parece simples, mas está no centro de muitos problemas de Planejamento Estratégico.
Em algumas organizações, o planejamento produz uma longa relação de objetivos, projetos, iniciativas e indicadores. Todos relevantes. Todos justificados. Todos merecendo atenção.
E todos chamados de prioritários. É justamente aí que surge o problema.
- Se tudo é prioridade, nada é prioridade.
Importante não é o mesmo que prioritário
Algo importante merece atenção. Algo prioritário merece atenção antes de outras coisas. Essa diferença é fundamental.
Priorizar pressupõe comparar alternativas e fazer escolhas. E fazer escolhas significa aceitar que algumas coisas importantes precisam receber menos atenção — pelo menos naquele momento.
Por isso, talvez uma das perguntas mais difíceis de um processo de Planejamento Estratégico não seja:
- “O que devemos fazer?”
Mas:
- “Entre tudo aquilo que poderíamos fazer, o que realmente devemos fazer agora?”
Essa é uma pergunta estratégica.
O planejamento pode criar prioridades demais
Existe uma tendência compreensível durante o planejamento:
- ninguém quer deixar um tema importante de fora.
Cada área possui necessidades legítimas. Cada gestor possui projetos relevantes. Cada problema parece merecer resposta. O resultado pode ser um planejamento que procura contemplar todos.
Mas, ao tentar contemplar tudo, corre-se o risco de não concentrar suficientemente os esforços em nada. Imagine uma organização com:
- 12 objetivos estratégicos,
- 25 indicadores,
- 30 projetos,
- 18 iniciativas prioritárias.
É possível administrar tudo isso. Mas outra pergunta precisa ser feita:
- Onde, de fato, essa organização decidiu concentrar energia, recursos e atenção gerencial?
- A existência de uma lista não responde necessariamente a essa pergunta.
Priorizar é escolher
Uma estratégia não é apenas uma declaração sobre aquilo que queremos fazer. Ela também revela aquilo que decidimos não fazer agora. Essa segunda parte costuma ser mais difícil.
Adicionar uma nova iniciativa ao planejamento é relativamente fácil. Retirar uma iniciativa importante para concentrar recursos em outra exige decisão. Por isso:
- Estratégia também é renúncia.
Renúncia, nesse contexto, não significa abandonar definitivamente algo importante.
Muitas vezes significa simplesmente dizer:
- “Isso é importante. Mas não é nossa prioridade agora.”
Essa pequena frase pode produzir enorme clareza gerencial.
Faça um teste simples
Sem consultar o Planejamento Estratégico da sua organização, responda:
- Quais são hoje as três principais prioridades estratégicas da organização?
Anote as três respostas.
Agora imagine fazer a mesma pergunta separadamente ao presidente, aos diretores e aos principais gestores. Eles escreveriam as mesmas três?
Talvez esse seja um dos testes mais simples — e mais reveladores — sobre a clareza de uma estratégia. Se cada gestor apresenta uma relação muito diferente, podemos ter um problema que nenhum documento estratégico resolve sozinho:
- falta de escolha compartilhada.
Prioridade também precisa chegar ao cotidiano
Existe ainda outra questão. Não basta declarar prioridades. Elas precisam influenciar decisões.
Se determinada iniciativa é realmente prioritária, isso deveria aparecer:
- na agenda da liderança;
- na alocação de recursos;
- na escolha dos projetos;
- nas reuniões de acompanhamento;
- nos indicadores;
e, principalmente, nas decisões sobre aquilo que não será feito agora. Quando tudo continua recebendo a mesma atenção, talvez a prioridade exista apenas no documento.
Menos prioridades. Mais realização.
A capacidade de uma organização realizar sua estratégia não depende apenas da qualidade das ideias que produz. Depende também de sua capacidade de concentrar esforços.
Por isso, talvez devêssemos substituir a pergunta:
- “O que mais podemos incluir no nosso Planejamento Estratégico?”
por:
- “O que realmente precisa receber nossa atenção agora?”
Essa mudança altera profundamente o planejamento. Porque a estratégia deixa de ser uma grande relação de intenções e passa a ser um conjunto de escolhas.
E as escolhas produzem foco. Foco orienta ação. Ação produz resultados.
PLANEJAR MENOS. REALIZAR MAIS.
Estratégia ágil. Resultados concretos.
Kleber Nóbrega
Doutor em Engenharia de Produção pela POLI-USP | Consultor | Professor | Autor

