Somos filhos que servem aos pais?
Em tempos de Natal e fim de ano, costumamos fazer reflexões sobre nossa vida, presente-passado-futuro, relacionamentos, nosso papel no mundo…
Costumamos providenciar festas, comemorações, celebrações do espírito de Natal, e também comprar presentes.
Inspirado em um artigo que li recentemente, quero trazer uma reflexão, aqui no Blog, sobre o nosso papel enquanto servidores daqueles que mais nos serviram: nossos pais.
E, baseado na reflexão, relacionar algumas sugestões para escolhermos e darmos um presente inesquecível a nossos pais.
Como diz o ditado “ser mãe/pai é padecer no paraíso”, renunciamos a muito quando nos tornamos pais.
Quando nos tornamos pais, nossa vida muda fortemente, e passamos a dar mais que receber, compartilhar mais que usufruir, “compreender, que ser compreendido, amar, que ser amado”, como propôs Francisco de Assis.
Essa questão nos leva a uma reflexão sobre o quanto temos sido egoístas ou altruístas na relação e dedicação para com nossos pais.
O egoísta age em prol de si mesmo. O altruísta pensa e age a partir da preocupação com o outro.
Assim, coloco a questão: temos sido filhos que se colocam a serviço dos pais na mesma proporção em que eles serviram a seus filhos?
Temos sido filhos que se colocam a serviço dos pais na mesma proporção em que eles serviram a seus filhos?
O Prontuário de meu pai
Recentemente li um artigo que trazia uma boa reflexão sobre quanto somos, enquanto filhos, egoístas ou altruístas, em relação a nossos pais.
No artigo “Prontuário de meu pai”, publicado em seu Blog, o autor Capinejar faz um relato da experiência de acompanhar seu pai a um hospital. Reproduzo aqui, na íntegra.
Meu pai, 79 anos, estava com pressão alta e o levei para a emergência do hospital. Ele foi conduzido para a enfermaria e fiquei com o seu celular e a sua carteira. Na doença, não existe posses. Era o seu responsável pela primeira vez na vida. Precisava preencher o prontuário médico. A atendente me alcançou a folha alertando que se tratava de perguntas simples. Peguei a caneta e mordi a tampa, em vez de deslizar a tinta na página.
– Biotipo sanguíneo?
Eu não sabia. – Alergia a medicação? Eu não sabia.
– Já teve sarampo, caxumba, catapora?
Eu não sabia. – Realizou alguma cirurgia?
Eu não sabia. – Vem usando medicação?
Eu não sabia. Vi que eu não conhecia o meu pai. Ele que me conhecia de cor e teria facilidade em preencher qualquer ficha a meu respeito.
Mesmo possuindo quatro décadas e meia de oportunidades, o pai surgia como um desconhecido íntimo. Um anônimo. Eu não me esforcei em descobrir quem me cuidava durante todo esse tempo. Nossa relação foi uma via de mão única.
Terminei reprovado no Teste de Filho. Deixei o teste em branco, para o meu constrangimento. A atendente tentou disfarçar o desconforto: “Depois perguntamos para ele”.
O prontuário médico tornou-se o meu obituário filial. Eu me dei conta de que nunca me preocupei em desvendar quem habitava a função “pai”, em determinar as suas escolhas, em revelar a pessoa atrás da roupagem familiar.
Meu pai veio com uma encomenda pronta quando nasci, e jamais desfiz o embrulho para buscar o que havia dentro. Não desfrutava de condições de responder nada por ele, pois o reconhecia como eterno provedor, uma fortaleza inexpugnável, onde me socorria em caso de necessidade. Só eu pedia ajuda, não ajudava. Só eu cobrava afeto, não devolvia. Só eu esperava recompensas, não observava também a sua carência e sua fragilidade.
Não questionei o que ele viveu antes de mim. Não sabia se ele teve cachorro, qual o nome, se ele sofreu com a perda do mascote, se sofria castigo na infância, qual o seu melhor amigo, se dançava nas festas da escola ou permanecia encostado na parede, se nadava, se andava de bicicleta, qual a carreira que sonhou, qual o seu pior trauma, qual a sua maior felicidade, se içou pandorga, se pescou, se participou de acampamento, com o que brincava, se jogava futebol, qual a sua posição, se terminava como goleiro por não fazer gol, se dividia o quarto com os irmãos, com qual idade começou a ler e a escrever.
Eu simplesmente me conformei em ser o seu filho, jamais fui seu amigo.
CARPINEJAR
Sobre Servir
No artigo “Quem não vive para servir?”, publicado neste Blog, apresentei algumas conotações da palavra servir. Resgato aqui algumas delas.
Servir tem relação com fazer o bem, voluntariado, filantropia, ajudar, doar, doar-se, dar a mão; auxiliar, tratar, cuidar, amparar, humanizar, oferecer algo, ter utilidade.
Pois foi por conta desse entendimento sobre servir que, logo após a leitura do Prontuário de meu pai”, me inspirei a propor que cada filho dê um presente diferente, especial, simples e barato, a seu pai e/ou sua mãe.
Que o filho possa dar um “Prontuário de pai” a si mesmo, e, como consequência, dedicará atenção e tempo, mas acima de tudo, dedicação para escutar aquele que tanto lhe serviu em todos os momentos de sua vida.
O que proponho é que você explore algumas questões da vida de seu pai e mãe, levantando com eles sua história, suas lembranças, suas vitórias, suas inquietações, desejos, anseios, e outras coisas mais que você ache oportuno, mas que sirva, acima de tudo, para você escutar, sem relógio por perto.
No livro “Paradoxo do tempo”, Philip Zimbardo propõe que, em função de nossa vida, idade, o que fizemos ou deixamos de fazer, costumamos pensar, falar, decidir e agir, com base no nosso passado, presente ou futuro. E, com o avanço da idade, tendemos a valorizar mais o passado.
Falar do passado, sobretudo das boas coisas do passado, costuma fazer bem e provocar momentos de alegria e prazer.
Assim, quando você for fazer o prontuário de seu pai ou de sua mãe – espero que você acate minha sugestão – colete informações úteis para uma emergência, mas explore outros aspectos da vida dele ou dela. Certamente vocês terão momentos agradáveis.
Na seção seguinte ouso sugerir algumas coisas que você pode fazer, e algumas informações que você poderá coletar.
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O melhor presente que um filho pode dar a seus pais
Apresento, assim, algumas sugestões para você, filho, dar um presente diferente a seus pais, neste Natal (ou em qualquer outro momento):
- Primeiro, prepare seu espírito. Você vai fazer algo útil – informações, mas agradável – a conversa com aquele que tanto se dedicou a você. Sobretudo para ele ou ela, conversar com o filho sem a pressão do dia a dia, da vida corrida e dos minutos a pagar, será algo que lhe fará bem. Acima de tudo, você estará à disposição, um gesto de amor.
- Em seguida, prepare um roteiro, com informações a serem coletadas. Aqui relaciono algumas:
- Biotipo sanguíneo
- Alergia a medicação
- Doenças que teve, como sarampo, caxumba, catapora, etc. (Faça uma lista, conforme a região onde você mora)
- Realizou alguma cirurgia?
- Vem usando medicação? Quais?
- Onde estão os exames de saúde recentes? Os mais antigos?
- Teve cachorro, qual o nome?
- Qual o seu melhor amigo?
- Dançava nas festas da escola ou ficava encostado na parede,?
- Nadava, andava de bicicleta, jogava futebol ou vôlei?
- Qual a carreira que sonhou?
- Qual a sua maior felicidade?
- Costumava brincar de que?
- Participou de acampamento?
- Com que idade começou a ler e a escrever?
- Complete essa lista com outras informações que você considere úteis.
- Se o seu irmão/irmã dispuser das informações, não pegue com ele/ela. É extremamente importante que seu pai/mãe se sinta cuidado por você. A menos que seu pai/mãe esteja sem condições de localizar documentos e informações, evite pedir a qualquer outra pessoa que não seja ele/ela. Diria mais: mesmo que seu pai/mãe não se lembrar onde estão, combine com seu irmão/irmã, e vá pedindo ao pai/mãe, e vão, juntos, encontrar o que falta.
- Se você comprou qualquer outro presente para seu pai/mãe, não importa se já entregou ou não. Este presente será melhor. Fará muito mais bem a seu pai/mãe!
- Não agende previamente com ele ou ela. Procure encontrar um momento, nesta época de fim de ano, após uma refeição, no fim de tarde, após o lanche, ou mesmo durante um café, e inicie a conversa, de forma despretensiosa, leve, tranquila. Não assuma qualquer outro compromisso nas próximas cinco horas. Esteja à disposição!
- Leve consigo bons momentos de sua vida juntos, para quebrar o gelo, descontrair e alegrar. Se puder, deixe preparadas algumas músicas de que ele/ela goste. Use quando achar oportuno.
- Explore, de modo relaxado, calmo e profundo, o filme da vida de seu pai/mãe.
- Não fique olhando para o relógio. Nem use seu smartphone, a menos que seja para fazer anotações. Desligue os aplicativos de redes sociais e outros que possam desviar sua atenção. Concentre-se na conversa com seu pai/mãe.
- Quando finalizar, se puder, compartilhe aqui no Blog qual foi sua sensação. E, melhor ainda, qual foi a sensação de seu pai ou mãe.
- Para finalizar, agende-se: quando você vai atualizar esse prontuário que acabou de preencher?.
Não tenho a pretensão de ter elaborado uma lista de sugestões completa. Apenas fui enumerando, a partir do “prontuário de meu pai”, algumas coisas e ferramentas que podem ajudar em sua “entrevista de prontuário”.
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Dedicatória
Dedico este artigo a Valéria e Maria Luiza, duas filhas aprovadíssimas no Teste de Filho.
Dedico também a todos os filhos e filhas que ,por dedicação e senso de servir, seriam aprovados no Teste de Filho.
E agradeço a Carpinejar, a inspiração!
Espetacular inspiração Kleber! Grato pela reflexão e provocação!
Forte abraço!
Obrigada meu amor!
Servir aos meus pais é o mínimo que posso fazer pelo que eles foram e são para mim e toda a minha família.